Continuamos mobilizadas por um país melhor


Março é o mês de luta das mulheres, e este ano, elas foram às ruas, no dia 8 de março, com o objetivo de fortalecer a luta do combate à fome, à violência, ao racismo e também da defesa à democracia.

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Além da luta, será que há o que comemorar neste mês? Quais pautas avançaram e quais ainda precisam avançar? Para responder essas e outras perguntas, o Brasil de Fatoconversou com Mariana Lacerda, cientista social e militante da Marcha Mundial das Mulheres.

Brasil de Fato: Como foi o ato do 8 de março em Fortaleza?

Mariana Lacerda: Eu ainda estou assimilando o que foi o ato, porque foi um ato muito vitorioso. A gente vem de um processo intenso de mobilização pela eleição do presidente Lula e contra os golpistas, e o 8 de Março é a abertura desse ciclo político das lutas do ano. Foi um ato muito bonito, um ato massivo, um ato diverso, você tinha uma diversidade de coletivos e organizações.

A gente está trabalhando com uma média de que 8 mil mulheres participaram desse ato e o nosso sentimento, da Marcha Mundial das Mulheres e da organização do 8 de Março é um sentimento de vitória. Nós mulheres mostramos que somos fundamentais para a retomada da democracia do nosso país e que nós continuamos mobilizadas por nossas pautas e para ter um país ainda melhor.

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Quais pautas levantadas pelas mulheres já avançaram?

Olha, no 8 de Março também é sempre bom a gente resgatar quais pautas a gente já conseguiu avançar. Neste ano, com a retomada do governo democrático e popular, nós já temos várias vitórias recentes: a retomada do Ministério das Mulheres; a reestruturação do 180, o canal de denúncias de violência; a gente teve, por parte do presidente Lula, o anúncio de uma série de políticas para as mulheres como novas Casas da Mulher Brasileira; nós temos aí um PL muito importante que o presidente Lula apresentou, que é de igualdade salarial, que é um dos temas fundamentais do movimento de mulheres. Nós temos uma série de iniciativas que já foram apresentadas por esse governo, mas a gente também tem uma série de desafios.

E por falar em desafios, quais são as pautas que ainda precisam avançar?

A gente vive um machismo estrutural. Nós vivemos em uma sociedade que é machista e patriarcal. Para você ver, nós estamos no estado que tem matado as nossas mulheres. No próprio mês de março nós tivemos o assassinato de uma vereadora, nós tivemos a professora Lola ameaçada de morte, ela é ameaçada sistematicamente por ser uma militante feminista. Então o debate da violência é fundamental, ele é o nosso grande desafio, construir uma sociedade onde as mulheres não sejam vítimas de violência, e o nosso estado precisa fazer algo que chacoalha isso aí, porque o número de mulheres mortas desde janeiro é muito alto, já ultrapassa o do ano passado e a gente quer viver em sociedade.

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Outro grande desafio é a questão do trabalho. Você vê aí diversas mulheres desempregadas. A gente sabe que com a pandemia foram as mulheres que foram postas para fora, principalmente as mulheres negras. Então assim, a gente precisa de um processo de retomada do emprego e uma retomada a partir também das condições de trabalho para essas mulheres, isso também segue sendo um dos nossos desafios. Outro grande desafio que se coloca, inclusive nós temos uma marcha esse ano, é o debate sobre a soberania dos nossos territórios, sobre a soberania alimentar, sobre a questão da fome, isso inclusive é tema do 8 de Março este ano, que é o combate à fome. 

A questão da fome, a questão da violência, a questão do trabalho e também a questão da autonomia do nosso corpo segue sendo uma bandeira e um desafio para as mulheres, o debate sobre a autonomia dos nossos corpos. A gente sabe que teve um processo intenso de demonização desse debate da autonomia do corpo e da vida das mulheres.

Por que há tantos discursos de ódio contra às mulheres?

Olha, se você pegar as mulheres que sofrem discurso de ódio na internet, você vai ver que elas não sofrem discurso de ódio simplesmente por ser mulher, elas sofrem discurso de ódio pelo que elas defendem. Elas sofrem discurso de ódio por defender determinadas pautas e propostas, por exemplo, a Lola. A professora Lola, da UFC, é sistemicamente atacada porque é uma feminista combativa, que denuncia o machismo. Ela sofre uma reação desse machismo. Você vê as mulheres negras que ocuparam os parlamentos, quase todas essas mulheres negras foram ameaçadas de morte, e isso tem a ver com o machismo e racismo, como eles se cruzam, e tem a ver com as pautas que a gente defende.

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"Não só o Bolsonaro, mas todos aqueles que pregam uma política de morte, uma política de ódio, uma política fascista devem ser responsabilizados", afirma Mariana Lacerda. / Foto: Reprodução/Redes Sociais

Quais são as expectativas com os novos governos, tanto Federal como estadual para as pautas das mulheres?

Nós do movimento de mulheres fomos às ruas para eleger tanto Lula quanto Elmano. Nacionalmente, já tem as questões que eu citei dos projetos que foram apresentados pelo presidente Lula, mas esse novo período marca uma retomada, marca um diálogo, marca um reconhecimento. Você vê a reativação do Ministério, que agora não é o Ministério para as mulheres, mas é o Ministério das Mulheres, você vê que é o governo falando publicamente que vai atuar para garantir direitos para as mulheres. Então assim, isso foi fundamental já.

Você ter onze ministras no governo Lula, lógico que nós gostaríamos da paridade, mas a gente sabe que isso já é um avanço, você ter mulheres em setores importantes como saúde e, inclusive, na chefia dos bancos públicos, desmistificando essa história de que mulheres não debatem economia. Você ter hoje nos dois importantes bancos públicos duas mulheres à frente, acho que o governo Lula está sim preocupado com essa questão.

Aqui no governo do estado já foi anunciada uma série de medidas muito importante. A questão da empregabilidade, foi anunciada uma parceria com o Sine/IDT para a questão da empregabilidade; foi anunciada a criação de um comitê de monitoramento da violência, de monitoramento de ações de prevenção de violência; foi anunciado também pelo governo Elmano, que a gente sabe que não necessariamente é uma pauta só das mulheres, mas uma pauta geral que envolve muitas mulheres, que é a questão das cozinhas populares, das cozinhas solidárias, o governo coloca isso dentre uma das suas principais políticas e a gente sabe que isso afeta diretamente a vida das mulheres.

As iniciativas das cozinhas solidárias são iniciativas fundamentais para as mulheres do estado do Ceará, bem como também a questão do mutirão das filas de cirurgia. Não é uma política necessariamente só para as mulheres, mas a gente sabe o quanto as mulheres também são impactadas nessa política que foi anunciada pelo governo Elmano. Nós tivemos também o anúncio de mais duas casas da mulher cearense, isso também é uma política que o governador já falou que pretende ampliar. 

Acho que essas são iniciativas importantes, mas acho que vale destacar o diálogo. Acho que os dois governos estão abertos a dialogar e abertos a combater a questão da violência, a questão do feminicídio, a questão da desigualdade. E é por isso, inclusive, que nós ajudamos a eleger esses governos, porque acreditamos que as nossas pautas serão atendidas. 

E o que representa esses anúncios feitos pelo Governo do Estado do Ceará?

O anúncio das cozinhas apresenta um debate central hoje no Brasil, que é a mudança, da gente tirar o nosso povo do Mapa da Fome novamente. Eu acho que essa é uma bandeira de toda a esquerda, é uma bandeira de todos os movimentos, e também, é uma bandeira do movimento feminista, mas eu acho que representa um avanço para as mulheres cearenses, representa uma importância que as mulheres cearenses terão no governo.

O governo Bolsonaro acabou, só que a gente ainda vê resquícios do bolsonarismo. Esses resquícios atrapalham a luta das mulheres no Ceará?

Dentro do tema central do 8 de Março está: “Sem anistia para golpistas”. Nós acreditamos que o Bolsonaro tem que ser responsabilizado pelos seus crimes, assim como todos que compactuaram, no Brasil e também no estado do Ceará. Não só o Bolsonaro, mas todos aqueles que pregam uma política de morte, uma política de ódio, uma política fascista devem ser responsabilizados.

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Fonte: BdF Ceará

Edição: Camila Garcia

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